terça-feira, 6 de maio de 2014

O Dia da Noite

De dia humano. À noite lobo. Acabara de roubar uma túnica de uma corda onde estavam estendidas várias peças de roupa a secar ao sol. Para variar, ficara durante a noite com as vestes todas rasgadas aquando da minha última transformação. Assim que vi uma túnica feita à  minha medida, não hesitei: roubei-a de imediato. Era feita de burel e, portanto, era incómoda e desconfortável.Tinha andado uma centena de metros quando, para meu espanto, deparei-me com um osso de dimensões colossais atravessado no caminho. Deu-me ganas de o roer, mas refreei os meus instintos. Afinal, era somente um osso, nada mais. Para além disso, eu já assaltara o talho da vila mais próxima e já tinha a barriga cheia.
O caso parecia resolvido não fora o osso começar a declamar um poema. Ora, na minha vida só ouvira uma única vez  um osso entoar um poema  e fora apenas uma quadra. E ainda por cima, a rima era fraca.
Mais espantado ainda fiquei quando do interior do mesmo, emergiram milhares de escaravelhos dourados a trautear tangos dos anos quarenta. E se eu decidira não comer o osso, os bichinhos pareciam bem determinados em fazer de mim a sua próxima refeição. Como eu estava muito habituado a viver, pensei que era sensato fugir do alcance daquelas criaturas adoráveis. Corri o mais que podia, tropeçando nas pedras e galhos que encontrei pela frente. Ao ver diante de mim um ribeiro, mergulhei nas suas águas agitadas. Arrependi-me logo de seguida, pois estavam geladas e parecia que pequenas agulhas, aos molhos, se cravavam na minha pele todas em simultâneo. Confesso que ser devorado por escaravelhos, provavelmente, não será tão desagradável como morrer enregelado nas águas de um ribeiro.                    

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